terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sonhos

Saí com o lobo solitário para ver as saias rodarem no salão, os corpos se entrelaçarem na pista e ver o íntimo se tornar pequeno, o tempo de um xote de forró. Falei com ele dos meus sonhos incômodos e do meu sentimento de perda de tudo. Ele me falou de suas cartas e seus sonhos.
Dias depois ele me manda inbox o texto que exprime o meu sentimento, a minha angústia e dá poesia a minha dor. Revelo aqui em primeira mão o texto de Jhonny Castro, o lobo solitário:

SOBRE DORMIR E SONHAR

Os olhos não são a janela da alma. São as portas escancaradas. Abertas ao máximo que podem para deixar entrar qualquer criatura senciente e livre, e mais ainda: ciente de sua liberdade.
Alguns são aquelas enormes portas comerciais, que abrem para cima e deixam um gigantesco vão de espaço livre, pelo qual é possível observar de braços abertos, e ver todos os cantos do interior. Esses também são mais seguros quando estão fechados. Já há outros que são pequenas portas como de casinhas de bonecas, pelas quais é necessário um esforço tremendo para conseguir ver o interior, deitar no chão, vasculhar a pequena extensão aberta, e nesses nunca se vê os cantos.
Fechei os meus olhos enquanto sentava pesadamente sobre a cadeira desconfortável. Aprendi a dormir em qualquer lugar, qualquer que seja a necessidade, não sofro de insônia nem de narcolepsia, durmo quando e como quero. Ao bem da verdade, dormir é a maior das perdas de tempo. Deixemos o sono para aqueles que sonham.
Mas fechei meus olhos úmidos, devagar como que para não afogá-los, como peixes que se esqueceram de como devem nadar. Aos poucos, de maneira nada concreta, deixo-me envolver pela névoa inebriante, pela sensação de flutuação constante, pelo apagar das luzes essenciais. A respiração se torna compassada, o ritmo do coração diminui, o desconforto dessa cama de molas suaves,coberta por lençóis de algodão egípcio nem parece uma cadeira.
É o sono dos vigilantes, é início de tarde, e é também fim de tempos. Dormir agora ou para sempre é mera questão de escolha. Alguns dos sentidos não desfalecem, uma parte do cérebro está atenta ao mundo exterior, como alguns tubarões que dormem apenas metade do cérebro de cada vez para que não parem nunca de nadar, afundem, e morram nas profundezas impenetráveis. Também não posso morrer nas profundezas impenetráveis da consciência nesse momento.
A tua imagem, o teu vulto, a tua silhueta. O teu rosto sereno é sinônimo dessa sombra. Desse eclipse total do sol, outrora prenunciador das piores mazelas, pelo menos para os povos menos instruídos nas decisões misteriosas da naturezacosmológica. O teu sorriso misterioso prenuncia o meu próprio eclipse da consciência nesse estado ébrio de sono vigilante. Nunca dormindo, nunca acordado.
Dormi para sonhar. Para ver a tua imagem borrada com olhos que não abrem para nada, nessa imagem abstrata que se forma em algum lugar entre as sinapses. Procuro a tua imagem, a minharepresentação mental da forma física que um dia você foi, dos olhares que um dia foram meus, seus, e nossos.
Entre as representações pictóricas que tentam ganhar espaço em minha mente, procuro você. Em mar bravio de pensamentos em turbilhão, estendo minha mão. Quero te tirar para dançar. Quem sabe você não esteja também sonhando nesse exato momento. É início de tarde, e faz calor, sonos são pesados nessas horas. Ao fundo o ruído da rua e do mundo real. Em minhas mãos imaginárias o calor dos teus dedos.
Inadvertidamente, desejo nunca mais acordar. Agora e para sempre são unidades de tempo muito próximas. Desejo realmente que você esteja sonhando também, seu próprio sonho, onde aquele cara do passado, que seria um dia personagem das suas histórias, tenta tirar você para dançar.
Sei que nossas danças nunca foram nada convencionais. Mas essa parece especial, dançamos em um mundo sem barreiras, onde todas as portas estão escancaradas. Dançamos em um plano abstrato, onde o tempo não passa, e o espaço não existe. Talvez, se o calor dos teus dedos que eu sinto for levemente real, poderemos, mesmo que acordemos, dançar para sempre.
Ultimamente, para falar a verdade, nem sei mais o que de fato é real, vejo as coisas acontecendo antes de elas acontecerem, sinto como se eu tivesse recebido especial autorização para ler os fios tecidos pelas irmãs Moiras. Mas eu sou demasiado inocente para saber interpretar corretamente essas linhas. Só sei que o concreto e o abstrato andam se fundindo.
Com meus dedos entrelaçados aos seus, bailamos no plano de Morfeu, e eu te conduzo para todos os lugares. Sei que daqui a pouco precisarei acordar, voltar ao início dessa tarde quente, escolherdormir apenas agora. Sei que precisaremos nos despedir, eu da sua imagem conceitual criada na superfície da minha consciência, com a ajuda sensata das profundezas da minha memória. Ah! Se você soubesse quanto tempo eu espero por essa dança, mesmo que abstrata.
Puxo-te para mim, tento enlaçar a tua cintura. Mas você é apenas uma imagem, um vulto, uma silhueta. A realidade de você ficou lá atrás do mundo real, onde o tempo e o espaço agem implacavelmente.
Abro os olhos devagar, não estão mais úmidos. A tua sombra se dissolve perante os excessos da luz real. Mas sinto ainda em minha pele o calor do toque dos teus dedos. A versão pictórica pungente do teu sorriso ainda está presente em mim. E eu sei que em algum lugar, em algum plano secreto, abstrato ou concreto, nós ainda dançamos. E dançaremos para sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Inutilidades passadas

Pages - Menu